Saturday, 7 January 2017

Turma do Pateo do Collegio - its origins

As we have seen earlier, there is a group of mostly old people who congragate around Pateo do Collegio - in downtown São Paulo - every Tuesday from 2:00 PM to 5:00 PM to talk about 'them good old times' when Francisco Alves was King and Orlando Silva was Prince; when Carmen Miranda - the top Brazilian female singer - left everything behind and went away to the U.S.A. to make herself a name recognized the whole world. A time when Dalva de Oliveira gladly took Carmen's place and became the greatest female singer Brazil had ever had. 

These meetings started circa 1979 when old record collectors Roberto Gambardella, Antonio Petti, a former radio DJ and a few others decided to exhibit their surplus 78 rpm and vinyl albums on the footpath of Rua General Carneiro, a very busy street that connects the old Sao Paulo downtown area with Dom Pedro II Park where people rush to get into buses that take them all over.

Some people would stop to browse, ask prices or simply talk about those 30s and 40s celebrities. Three years later, in 1982, a Jesuit friar who managed the Company of Jesus compound at Pateo do Collegio, invited the record collectors to do their business inside the protected square where they could be in a much more comfortable position and less exposed to city griminess, disorder & roughness. They gladly accepted the friar's invitation and gathered every Tuesday from 2 PM to 5 PM. And they've been doing it up to date (January 2017).  

Sao Paulo evening newspaper 'Folha da Tarde' was the first to write about these people on 8 August 1984. Here's what journalist Miguel de Almeida wrote about his visit to Pateo do Collegio:


Troca-troca em várias rotações
Colecionadores se reúnem às terças no Pateo do Collegio para trocar raridades

Uma pequena discussão se estabelece entre dois aficcionados colecionadores de discos antigos:

- A gente tá aqui por não ter o que fazer - diz, sotaque italiano.
- O que? Nós estamos é salvando a memória nacional - proclama outro, recebendo o apoio dos presentes.

É a feira de discos antigos e raros, que há 2 anos, todas as terças-feiras das 13:30 às 17:00 horas, acontece nos jardins do Pateo do Collegio. Ali, dezenas de colecionadores trocam, ou vendem, discos raros (nacionais e estrangeiros), partituras musicais, periódicos - Revista do Radio, Carioca e outras - e objetos ligados à musica, como um gramofone, uma vitrola a corda.

Não existe nenhuma formalidade, apenas uma coisa é pedida: amor à musica. Os discos ficam estendidos pelo chão e uma primeira olhadela mostra a variedade das coleções. Três Carusos de épocas diferentes, estão ao lado de vários Mario Lanza; entre eles, uma raridade de 1902: Geraldine Farrar ('soprano com orquestra, em francês', informa o selo) em disco gravado num único lado, como era costume no início da industria fonográfica.

Mais adiante, alguns brasileiros, todos da chamada Velha Guarda: Orlando Silva, Francisco Alves, canções de Herivelto Martins executadas pela orquestra de Waldir Calmon, sambas de Noël Rosa na voz de Aracy de Almeida e uma infinidade de nomes.

'A feira começou reunindo apenas uns 5 colecionadores - e foi sem-querer', diz Roberto Gambardella, que cuida da Casa Lomuto, considerada o melhor 'sebo' da cidade na categoria de discos 78 rpm. Ele e alguns amigos, nas tardes de segunda-feira, espalhavam seus discos numa calçada da rua General Carneiro - a rua que liga a região da Sé ao Parque D. Pedro II - e ali trocavam informações e raridades.

Em 1979, a Companhia de Jesus reformou suas propriedades no Pateo do Collegio - Museu Padre Anchieta, Auditorio Manoel da Nobrega, Galeria Tenerife e cercou a Praça Ilhas Canárias com grades de ferro, isolando-a em um complexo de tranquilidade, longe do burburinho selvagem do centro da cidade. À entrada da nova praça, construiu-se um moderno café, onde o aroma de capuccinos permeia o ar constantemente.

Em 1982, três anos após essas reformas, o frei Jesuíta que administra o local, vendo a precariedade da Feira de Discos Antigos & Raros na calçada da Gal. Carneiro, fez o convite aos colecionadores: Por que vocês não vem para dentro da Praça Ilhas Canárias? Todos gostaram da ideia, e mudaram o dia da reunião para terça-feira, pois a segunda era dia-de-folga do pessoal do Café do Pateo.

E assim iniciou-se a nova fase de reuniões do Pessoal do Pateo do Collegio, que aos poucos foi deixando a prática de exporem seus 78 rpm no chão e dedicarem-se apenas à arte da conversação e troca-trocas mais íntimos, onde o produto era mostrado individualmente.

Do início da Feira sobraram apenas 2 fundadores: Gambardella e Antonio Petti, radialista que manteve o programa 'Brasil da Velha Guarda' na Radio Tupi por muitos anos.

Entre os colecionadores, corre pouco dinheiro. Eles preferem as trocas: esse por aquele. Os colecionadores são capazes de intricadas peripécias para satisfazerem suas fixações. Alberto Guimarães - aposentado como vendedor de brinquedos - procura 'com uma vela acesa' a gravação de 'Triste carnaval', com o instrumentista Canhoto. 'O diabo é que eu tinha esse disco, mas quebrou!' Frequentemente ia visitar certo amigo e levava junto a raridade. Um dia, o acetato não resistiu aos apertos do transporte público e partiu-se - para enorme dor de seu dono. Guimarães, incansável, garante que ainda conseguirá a gravação.

Roberto Gambardella também fez muitas loucuras na sua vida de colecionador. Não era raro ele ter um 'estalo', sábado à noite, e tomar um ônibus em direção ao Rio de Janeiro, atrás de algum disco. Ou sob o efeito do mesmo impulso, rumar a Belo Horizonte. Distancia maior percorreu Alberto Guimarães que foi a Buenos Aires atrás de raridades de Carlos Gardel. 'Os argentinos vêm aqui. Eu fui lá e consegui'. Na bagagem trouxe 68 discos de Gardel e acabou tendo problemas na alfândega brasileira. Acharam que ele estava importando discos (comercialmente) e ele dizia: 'Não tá vendo? São discos antigos!' Acabou vencendo a música.

Atrás da gravação de 'Km 2', uma das primeiras gravações de Orlando Silva, Alberto Martins, o popular 'Nenê', foi parar na casa de uma senhora, ali perto do Jardim da Luz. Encontrou não apenas o 'Km 2' em 78 rpm, como comprou mais de 333 discos - todos antigos e raros.

Entre os colecionadores não existe qualquer unanimidade. Qual o maior cantor brasileiro de todos os tempos? À essa pergunta, duas correntes, atuantes e barulhentas, respondem: Orlando Silva e Francisco Alves. Gambardella, embora reconheça o mérito de Orlando Silva, tem em Gastão Formenti seu cantor preferido. Mario Reis também possui um bom fã-clube. E as cantoras? Para quase todos eles, Carmen Miranda, não pela voz, mas pela bossa e graça. E Odete Amaral e Dircinha Baptista pela voz. É tudo gente de bom gosto.

texto de Miguel de Almeida (ligeiramente alterado por Carlus Maximus)
publicado no jornal 'Folha da Tarde' de 8 Agosto 1984.

Antonio Petti at Pateo do Collegio in 1984.

On 16 September 1984, only 5 weeks after 'Folha da Tarde' first mentioned the Pateo-do-Collegio-crowd in its pages, a Sunday newspaper called 'City News' aka 'Shopping News' sent Matias Jose Ribeiro to check out what was going on with those old men and their marvelous 78 rpm record collection. As much of the 'City News' article is repetition of what had been printed earlier by 'Folha da Tarde', we chose excerpts of it in our transcription:

Colecionadores 

Nas terças-feiras, o ritual dos protetores dos 78 rotações 

A 'verdadeira', a 'autêntica' musica popular brasileira não morreu. E não morrerá nunca, se depender de um pequeno grupo de amigos que todas as terças-feiras se reúne na praça existente atrás da Igreja do Pateo do Collegio. Não são mais do que 30 ou 40, praticamente todos aposentados, idade em torno dos 60, e têm em comum uma intensa paixão pela musica brasileira da antiga, cultivada desde há muitas décadas e alimentada por coleções de milhares de discos de 78 rotações-por-minuto.

O encontro semanal, que nasceu espontaneamente e acontece desde 1981, acabou sendo batizado, não se sabe ao certo por quem, como Feira de Discos Raros. O nome não chega a ser injustificado. Colecionadores e quaisquer interessados em gravações antigas, principalmente os registrados em cera shellac (goma laca) e girando a 78 rotações por minuto, como 'Yes, nót temos banana' com Almirante, têm livre acesso à praça. Apesar da raridade, são muito poucos os discos que têm preço além dos Cr$ 5 mil, a maior parte dos que estão à venda custam entre Cr$ 1 mil e Cr$ 2 mil.

Senhor Enciclopédia 

Os amigos se referem à Roberto Gambardella como 'verdadeira enciclopédia da musica brasileira' e tornou-se  o objetivo secreto de todos terem, pelo menos, parte do conhecimento minucioso dele. Gambardella diz que tudo é reflexo de uma paixão que começou aos 14 anos, quando começou a ouvir radio e comprar discos. O número um, ele diz, sem pestanejar, foi 'Candieiro', de Kid Pepe e David Nasser, com Carmen Miranda. Ele é capaz de acrescentar a data de gravação, o selo, o arranjador, o número do catálogo, o título do lado B etc. Considerado imbatível quando o assunto é música brasileira, o 'Sr. Enciclopédia' observa modestamente, que só cobre com precisão o período que vai do início do século XX ao término da II Guerra. Até 1945, mais ou menos; 'depois começou a decadência...'

Alberto Augusto Martins, conhecido apenas por Nenê, iniciou sua coleção de discos em 1947. Nenê é dos que não fazem questão nenhuma de vender, prefere trocar. Na ultima 3a. feira, por exemplo, acabara de trocar um Orlando Silva dos anos 1950s - 'Marcha do Vira' e 'Cirandinha' - por uma gravação de Carlos Galhardo cantando em italiano - 'Cara piccina' e 'Mari'.

Toninho Fernando, conhecido também como Toninho Passarinheiro, se auto-entitula 'fã numero 1 de Orlando Silva'. Tem todos seus LPs - total de 34, incluídas as reedições e montagens - 'e uns 170 dos aproximadamente 200 discos 78 rpm gravado pelo Cantor das Multidões. Toninho tem, inclusive, uma preciosidade que não vende por dinheiro nenhum: Orlando Silva cantando 'Chopp da Brahma', gravação de 1935 do primeiro jingle publicitário feito no Brasil.

Dominada pelos senhores da Velha Guarda, a Feira tem atraído também pessoas mais jovens, como Ricardo Kondrat, nascido em 1963, com 21 anos, desde 1978 - há 6 anos - vidrado em Carmen Miranda. Kondrat está colaborando na exposição que o sr. Hugo Giovanelli, fã ardente da Pequena Notável desde os anos 1940s, está preparando para 1985, em comemoração ao 30o. aniversário de sua morte.

Ariovaldo Aily, 34 anos, frequentemente vem de Rio Claro-SP para encontrar na Feira novos 78 rpms para sua coleção iniciada em 1979 e que já possui 3.200 exemplares. Sem saber explicar bem de onde surgiu essa preferencia, ele observa que os 78 rpms estão desaparecendo, 'o pessoal está jogando no lixo'. E completa: 'acho que esta é a última década para quem quer comprar discos 78 rotações'.

texto de Matias José Ribeiro (editado por Carlus Maximus para evitar repetições)
publicado no jornal 'City News' aka 'Shopping News' de 16 Setembro 1984.

record collectors Padua Reis & Toninho Fernando aka Toninho Passarinheiro, an Orlandista.
in the beginning they put records & gadgets on display for those who might like to buy; gradually the meeting turned into a talk-shop mainly. 

On 3 October 1984, just 2 weeks after the 'City News' article about the Pateo-do-Collegio-crowd - 'Jornal da Tarde' - the other evening Sao Paulo newspaper - also went along for the ride and sent their journalist Edmar Pereira to pay the Pateo a visit to talk to those collectors who could not help but feel important after being thoroughly interviewed by so many journalists. 'Jornal da Tarde' article is the most extensive of all.


Uma ilha que vive a paz, a amizade. Tudo em 78 rotações.

Um lugar em que o tempo parou. Lá, os mais velhos falam de Chico Alves, Carmen Miranda... e trocam recordações.

No velho centro da cidade, entre agitação, correria, multidão, mau-cheiro e pobreza, o Pateo do Collegio não permanece apenas como monumento histórico, testemunha de séculos da vida de São Paulo. É também uma inesperada ilha de tranquilidade, rodeado por grade-de-ferro, com portões abertos até às 5 da tarde; bancos de ferro-forjado ladeando mesas de cimento armado, árvores ainda jovem, uma grande cruz marcando a missa celebrada pelo papa João Paulo II em 1980. Office-boys descansam, um velho dorme de boca aberta e escriturários comem seus sanduíches antes de voltar à labuta. A tarde vai passando com a brisa, com a vida...

Cabelos brancos, calvos; uma conversa que não se interrompe, onde se ouve com freqüência nomes como Francisco Alves, Orlando Silva, Carmen e Aurora Miranda, Gastão Formenti, Mario Reis, Paraguassú, Castro Barbosa, Carlos Galhardo. Pelo chão, pelos bancos, algumas pilhas de discos, capas amareladas, todos em 78 rotações por minuto. Passam de mão em mão, comentados sempre carinhosamente. Neste pedaço do Pateo, o tempo parou bem antes dos acordes dissonantes da bossa-nova obrigassem os tímpanos a novos exercícios de sensibilidade. Todas as terças-feiras, das 13 às 17 horas, esses apaixonados pelo passado musical brasileiro se reúnem para trocar, vender, comentar, para se sentirem vivos. Homens aposentados entre os 60 e 70 anos. Entre eles, Alberto Augusto Martins, o 'seu' Nenê, dono de 11 mil discos colecionados desde 1947, que se aposentou em 1978 depois de haver passado 37 anos no balcão da pizzaria que montara com seus irmãos.

'Seu' Nenê vai todas as terças ao Pateo do Collegio, assim como Francisco Martins, que é surdo, o primeiro a comercializar discos de 78 rpm em São Paulo; ou como Antonio Petti, ex-radialista que já exaltou muito a Velha Guarda em seus programas na Radio Cometa, com seus estúdios ali na Rua Venceslau Brás; como o grandalhão Roberto Gambardella, gerente da Casa Lomuto, que fica no 6o. andar do número 5 do Pateo do Collegio - nome em homenagem ao regente de orquestra argentino Francisco Lamuto, do qual o proprietário é fã ardoroso; como Alberto Guimarães, um admirador extremado de Carlos Gardel; como o emocionado e loquaz Antonio de Pádua Reis, advogado e também ex-radialista; como o comerciante José Pereira - 'Eu passo aqui p'ra relembrar, p'ra conversar, porque continuo trabalhando, não sou aposentado'; como Roberto Braga - parece o mais antigo de todos, tendo nascido em 1911.

Trocam cartões, marcam visitas, celebram seus ídolos. 'Seu' Nenê tem um orgulho e merece a inveja de todos: 'Sou o único aqui que tem uma gravação de 'Pé de anjo', em acetato. No outro lado tem 'Fala, meu louro'. Explica-se: 'Pé de anjo', a primeira gravação de Francisco Alves, o cantor dos cantores, é o mais procurado disco entre esses colecionadores. 'Se eu pedir Cr$ 50 mil pagam na hora, mas tem não vende. Conheço um rapaz que tem dois e não aceita vender nenhum', garante 'seu' Nenê. O melhor cantor? 'Olha, nem dá para disfarçar, o Chico foi o maior. Orlando Silva foi o mais popular, o que provocou mais paixões e multidões. Depois deles, em segundo vêm Gastão Formenti, Carlos Galhardo, Augusto Calheiros, a Patativa do Nordeste. E tinha a Carmen e a Aurora Miranda também. Sabe que a Aurora gravou musicas mais bonitas do que a Carmen?'

'Seu' Nenê está alegre com o dia: 'Agora mesmo peguei um disco de Arnaldo Pescuma, cantor dos bons tempos da Radio Tupi, 'Mulatinha da caserna' é uma marchinha linda e rara que eu não tinha'. Conta como oscila esse mercado, todo baseado nas ações da paixão e do sentimentalismo: um disco raro comum vai até Cr$ 20 mil, quando é gravação original; senão o preço vai baixando para 10, para 8, para 5 mil. Na sua captura de raridades do dia, 'seu' Nenê exibe ainda um Chico Alves com 'Eu vou chorar' e 'Aí eu queria', um Castro Barbosa com 'Quem dera' e, mais raro, a 'Canção dos aventureiros', da opera 'Il Guarany', gravada por Silvio Vieira. 'Por favor, não vá colocar que isto aqui é feira ou comercio. Ninguém está aqui por causa do lucro, mas pela paixão e pelas amizades'.

Mas negócios podem acabar saindo. O alto Gambardella, por exemplo, especializou-se em fazer levantamentos musicais. Ele é capaz de preparar um histórico completo das gravações de cada ídolo antigo. E também de, através de sua loja, a Casa Lomuto, fazer chegar ao colecionador obras raras autênticas ou então suas cópias em fita cassette. 'Comecei a mexer com discos aos 14 anos. Fiquei apaixonado por musica ainda moleque, quando meu pai comprou um radio de segunda mão. Ai tinha Nhô Totico, Alvarenga & Ranchinho...' Um cliente passa e lhe pede 'Saudades do Brasil', com Francisco Alves. A resposta vem com muita informação: 'Não tem, não. O Chico nunca gravou essa musica. Ele gravou foi 'Paisagens do Brasil' (1934), de Lamartine Babo, tocada no filme 'Macunaíma' (1969), na cena da canoa'.

Alberto Guimarães, o fã de Carlos Gardel, de quem chegou a possuir mais de 400 discos, organiza uma caravana para viajar à Argentina em 1985 - cinquentenário da morte do grande ídolo do tango. Gosta de Bing Crosby e de Maurice Chevalier. E de Gastão Formenti, espécie de unanimidade entre esses apaixonados. Embora Chico Alves seja primeira lembrança, Formenti é o mais admirado. 'Coloque ai que Formenti é um caso à parte', recomenda Luiz Guirado, outro colecionador, embora o seu grande ídolo seja o paulista Paraguassu.

'Gosto do Gastão Formenti porque foi sóbrio, dono de uma linda voz, de interpretação impecável. Conservou exatamente a mesma voz desde sua primeira gravação, em 1928 até a ultima, em 1940', diz o ex-radialista Pádua Reis, identificado pelos amigos como o 'busto de Orlando Silva que está em Santana'. Não parece incomodado pela confusão e faz um pronunciamento: 'Não estamos aqui defendendo fanaticamente o passado. Nós gostamos da boa musica brasileira, que acontece ser a antiga, pois que a moderna está abastardada'. E fala de sua admiração por Stefana de Macedo, no 'folk-lorico' (assim mesmo, separando as sílabas), e por Aurora Miranda. 'Aurora não tinha a exuberância da irmã Carmen, era mais recatada. Mas que voz bonita! Me lembro agora de 'Molha o pano', do Carnaval de 1936, que beleza, que amorzinho! Ah, para, não me deixa chorar, irmãozinho!'

Nenhuma grande discussão sobre política - eles são conservadores, mas evitam a pecha de malufistas; nenhuma grande discussão sobre futebol, embora o Corinthians mereça a maioria das preferências. 'Aqui nós nunca brigamos por política ou futebol. Briga, só teria aqui, com facadas e tiros, se alguém aparecesse com o 'Pé de anjo', com 'Não vá embora', a primeira gravação de Carmen Miranda em 1929, e resolvesse fazer um leilão'.

texto de Edmar Pereira (ligeiramente alterado por Carlus Maximus)
publicado no 'Jornal da Tarde' de 3 Outubro 1984.


After the initial barrage of newspaper articles about the Pateo-do-Collegio-crowd in 1984, it seemed like the novelty had worn off and they were sort of forgotten by the Press. Then, suddenly, 17 years later, daily 'O Estado de S.Paulo' published this article - written by Marisa Folgato - on their Sunday edition, 25 March 2001.

The headline read: Music lovers exchange LPs downtown! (Amantes da música trocam LPs no centro) which was a big step away from 17 years before when 78 rpm records were King! The times were really a-changing... even for those in the Crowd who were adamant against any change at all... Alberto Augusto Martins aka Nenê was the only person mentioned in the 1984 articles who was still active in 2001.

Amantes da música trocam LPs no centro 

Grupo reúne-se sempre às terças-feiras, a partir das 14 horas, no Pateo do Collegio 

O rei da memória não deixa escapar nem um detalhe, enquanto o rei da piada solta mais uma gracinha e o mestre do tango, sua voz aveludada. Mas a cena fica paralisada, assim que a musa, toda alinhada, aparece. É dessa maneira que os 'meninos' se tratam numa adorável brincadeira que se repete a cada terça-feira, a partir das 14 horas, no jardim do Pateo do Collegio, no centro de São Paulo. É ali que se reúne um grupo de homens e uma só mulher, com mais de 65 anos, para falar de sua paixão, a música.

Trocam experiências, impressões, gravações. Não de uma época qualquer. Para eles, fanáticos pelos discos 78 rpm (rotações-por-minuto), só valem sucessos das décadas de 30, 40 e 50. 'Francisco Alves, Orlando Silva e Sylvio Caldas foram os melhores', diz Alfredo Afif Esper, de 73 anos, morador da Vila Prudente, que há 10 anos frequenta o Pateo do Collegio.

Alfaiate de primeira, já aposentado, ele também é um bom conhecedor de música argentina e apelidado pelos demais de 'rei da memória', pois tem sempre na ponta da língua datas de lançamentos de filmes, músicas, eventos esportivos e até acontecimentos políticos nacionais e internacionais. 'Acho que herdei de minha mãe esse dom', garante Esper. 'Fiz várias viagens a Buenos Aires e adoro tango também', diz ele fã de Carlos Gardel e Libertad Lamarque.

Mas é Hormindo Retamero, de 78 anos, o maior apreciador de tango argentino. 'Só coleciono as musicas de Carlos Gardel. Tenho 500 gravações', garante Retamero, ajeitando a almofadinha de veludo mostarda que trouxe numa sacola. Ele também foi cantor de tango no tempo em que os salões de baile Lilás, Associação Auxiliadora das Classes Laboriosas e Vila Sophia eram famosos na cidade. 'Tive minha vida de boemia, mas sem esculhambação. Até gravei um 78 rpm nos anos 1950s e um LP nos anos 1960s', diz.

'Fiquei um ano na Argentina. Fui com meu irmão e sua mulher em 1947, mas não consegui me aproximar do pessoal de tango. Cantei muito no Parque Palermo de Buenos Aires, mas só como amador. Encontrei esse grupo de memorialistas por puro acaso. Estava num ônibus, o motorista não quis abrir a porta no ponto requirido, e me largou aqui no Pateo do Collegio. Assim, "cai na vida", descobri meus amigos', afirma Retamero.

Um dos maiores colecionadores do grupo é Alberto Augusto Martins, o Nenê. 'Tenho 37 anos. Se fosse de cadeia, já estaria livre', diz, emendando um '73 anos', que os cabelos brancos e os óculos de aros pretos parecem descrever melhor. É apenas a primeira das brincadeiras do 'rei da piada', como os amigos o chamam. São 25 mil discos de 78 rpm, além de 2 mil LPs na sua coleção, iniciada em 1947. 'Vivo emprestando para os outros gravarem', diz Nenê.

Entre eles, 500 são de Francisco Alves, 'sem repetição', um do violonista Américo Jacobino, gravado de um lado só, e a primeira musica de Dyrcinha Baptista, 'Borboleta azul', quando ela era ainda Dyrcinha Oliveira, aos 8 anos. Há 23 anos encontro com o grupo.'

O mais idoso, Manoel Nascimento, de 85 anos - 'pode falar 86, pois vou fazer aniversário em 3 de maio' - ainda vende revistas e discos raros em frente da Biblioteca Mario de Andrade. Os dedos amarelados pelas dezenas de anos de cigarros. 'Ainda fumo uns 15 por dia, mas deixei de engolir (inalar) a fumaça. Sabe como é a solidão, né?', diz. 'Mas toda terça-feira venho do Belém até o Pateo do Collegio para ver os amigos'. Faz 15 anos. 'Tenho 400 LPs e 78 rpm na coleção, só. Nunca tive CD. Se tivesse o aparelho, podia ser que gostasse'.

'Estava ansioso na teça-feira, pois ia ganhar um disco de Libertad Lamarque. Um amigo prometeu. E cumpriu'. 'Tenho um disco de charleston da década de 20 ou 30. E não consegui vender', diz Nascimento. 'Também, vou contar. Quem vai gostar de charleston?', emenda Retamero. 'Mas precisa ver que orquestra", retruca o outro. E a discussão segue assim. Divergências, ensinamentos. Uma conversa nada fiada. Só há uma unanimidade: a musa. Todos dizem que ela é a melhor da festa. E é mesmo.

Cabelos avermelhados, impecavelmente domados por presilhas, sobrancelhas e olhos delineados por lápis, batom encarnado; sapatos marrons combinando com a saia, colete vermelho, ela arrebata a atenção de todos logo na chegada. Até o nome é de musa: Pérola Plata. 'Só sou musa porque sou a única mulher nesse Clube do Bolinha', garante Pérola, toda sorriso, a pele preservada da ação do tempo. Tem 66 anos mas parece muito menos.

Advogada aposentada, ela tem uma discoteca eclética de 4 mil exemplares. 'Principalmente tango e bolero. Mas gosto muito de fado também', afirma, o sotaque carioca ainda presente, após 8 anos em São Paulo (mudou-se para cá em 1993). Apesar de muito bem casada, Pérola não teve filhos. 'Criança esbarra em tudo que eu gosto: ler ouvir música, viajar, dançar.'

Por causa da paixão pelos discos acabou descobrindo outra habilidade: restaurar capas de discos. 'Quando está encardido, passo algodão com alvejante diluído em água e seco com secador-de-cabelos rapidamente. Fica muito bom', diz, apresentando um impecável disco de Dinah Shore, 'Songs for sometime losers' lançado em 1967. 'Primeiro experimentei num que ia jogar fora, claro.' Quando não tem conserto, ela faz capas novas.

Foi Paulo Iabutti - filho do primeiro casal de japonês com brasileira na cidade de São Paulo - que apresentou Pérola ao grupo. 'Nesses encontros a gente tropeça em raridades. Se não tem o disco, a gente copia dos amigos', afirma Iabutti, um solteirão de 75 anos, que se formou em engenharia por correspondência, pela International Correspondence School, da Pennsylvania, U.S.A.

Tem milhares de discos de 78 rpm, da Velha Guarda, MPB e da musica popular norte-americana - a chamada safra das Big Bands, populares entre 1935 e 1945. 'Também falamos de cinema e de fotografia, minha outra paixão.' É na casa do Paulo, uma vez por ano, que todos se reúnem para uma tarde de perguntas e respostas chamadas de Passatempo Musical, onde os amigos competem entre si para ver quem sabe mais sobre os vários tópicos musicais ou cinematográficos.

Todas as terças-feiras, segundo Iabutti, após as 17 horas, quando as atividades no Pateo do Collegio se encerram, os animados 'meninos' dão uma passada pelo 'sebo' do Roberto Gambardella, ex-integrante do grupo, que é gerente da Casa Lomuto, ali perto, e depois partem para a Vila Mariana, para comer pizza.

A entrevista termina com um beijo na mão dado pelo 'rei da memória', um trecho de Gardel cantado pelo 'mestre do tango' e umas rosquinhas doces trazidas de Santana pelo 'rei da piada', numa tarde chuvosa, muito paulistana.

texto de Marisa Folgato
publicado no jornal 'O Estado de São Paulo', de 25 Março 2001.


Paulo Iabutti and Perola Plata in the foreground plus (anti-clockwise) Estevão, Hormindo Retamero, Nenê (Alberto Augusto Martins), Vicente Covello (Vicentinho), Alfredo Esper and Manoel Nascimento.
daily 'O Estado de S.Paulo' - 25 March 2001. 


from left to right: Alfredo Esper, Beto Abrantes, Toninho Passarinheiro, Carlus Maximus aka Luiz Amorim, Luiz Alberto aka Mazzolinha, N.I. man, Sirlei Jaldim, Luigi, Homero, N.I. man, Paulo Iabutti & Alberto Augusto Martins aka Nenê. 

Paulo Iabutti e sua irmã Nancy, em uma de suas ultimas fotos.

Paulo Iabutti * 31 May 1926  + 1st January 2017

Pequena homenagem a Paulo Iabutti, que faleceu exatamente na primeira hora de 2017, de um fulminante ataque cardíaco. O corpo foi sepultado no dia 1o. Janeiro 2017, no Cemitério da Vila Mariana. Paulo será muito lembrado por todos durante muito tempo ainda.

Paulo Iabutti's father & mother. 

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